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"Você vai me ajudar a matar o Papai." Angel Cordero tinha dez anos quando o irmão pediu. A barra de ferro já estava debaixo da cama. O pai deles era um assassino condenado que bebia e descontava na família. Batia na mãe. Matou os animais que os filhos amavam.
Tornou o medo uma coisa tão comum que duas crianças passaram a acreditar que matá-lo era o único jeito de fazer aquilo parar. Quatro meninos. Dois pais. Um quarto só, na Whipple Street. Quando o cheque do auxílio chegava, o pai pegava o dinheiro, ia pra cidade e bebia tudo.
Depois vieram a fila do queijo do governo, o despejo, os abrigos, um hotel social e o conjunto habitacional Farragut. Ruly, o irmão que disse aquelas palavras, resgatava todo bicho abandonado que encontrava e sonhava em ter uma fazenda algum dia. Melo mantinha a família unida. Mikey desenhava.
Angel observava, aprendia - e acabou se tornando perigoso o bastante pra sobreviver ao mundo ao redor dele. Fica no chão é a história real daquela infância, contada do jeito que a memória volta - em pedaços. Os nomes não foram trocados. Nada foi suavizado. Ninguém saiu melhor do que era, nem o autor.
É uma história sobre quatro irmãos protegendo uns aos outros enquanto a pobreza, o vício e a violência os transformam aos poucos. Sobre o que fizeram com eles - e sobre o que eles mesmos fizeram. Sobre a diferença entre sobreviver ao lugar de onde você veio e finalmente escapar daquilo que ele deixou dentro de você. Não tem mansão no final. Tem algo melhor.
Uma vida. Uma vida de verdade. Uma em que ninguém bate em ninguém, o aquecimento funciona e tem comida em casa.
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